Morando em uma fazenda luxuosa de 1.306 hectares de terra em Porto Nacional, Tocantins, apelidada carinhosamente de Terra Prometida, Henrique e Juliano vivem uma vida discreta e privada. Longe dos palcos e da agitação das grandes cidades, a dupla sertaneja, que faz questão de manter uma conexão com suas raízes mesmo em meio à ascensão meteórica, compartilha em entrevista íntima à Quem as lições de vida, momentos marcantes da carreira e a importância da família em meio à fama
A jornada de Henrique & Juliano: valores, desafios e momentos inesquecíveis
Desde o início da carreira, os irmãos, nascidos em Palmeirópolis, interior de Tocantins, foram guiados pelos valores familiares, conforme explica Juliano ao relembrar o passado: “Nossos pais sempre nos criaram com valores de vida. Por isso, começamos a nossa carreira focados nestes valores”. O cantor cita alguns desses ensinamentos: “Não se conquista nada sem trabalho. Não se conquista nada se não tiver respeito pelo seu trabalho e pelas pessoas. Não se conquista nada se você não se entregar. E não se conquista nada sem sabedoria e equilíbrio. Isso é o que temos buscado.”
Henrique, por sua vez, reflete sobre os desafios dessa jornada e destaca o maior deles: “Acho que um dos maiores [desafios] é se manter imune à vaidade. Temos de ter nossos pés no chão e não se afastar de nossos valores.”
O vínculo entre os irmãos vai além da música. Não é apenas uma parceria de palco, mas um laço de irmandade que se mantém inabalável, nas horas boas e ruins. “Eu e o Juliano não somos só irmãos, somos amigos, somos parceiros e estamos aqui para enfrentarmos sempre juntos todos os desafios que vierem”, ressalta Henrique.
Quando o assunto são os momentos altos da carreira, Henrique não hesita em dizer que é difícil escolher um só ápice. Como quem revisita memórias, ele cita as primeiras experiências em Palmas, o primeiro DVD que gravaram em Brasília, e “por aí vai”, mencionando ainda uma oportunidade grandiosa: “A música nos levou a lugares que nunca imaginamos, como gravar um DVD na Times Square (NY), algo muito desafiador. Fica muito difícil escolher um só.”
“Vivemos tão intensamente cada momento que, de bate e pronto, não conseguimos lembrar de um [momento só] que reviveríamos. Sempre dizemos que é importante fazer tudo o que der o que puder no agora”, completa Juliano.
O sertanejo como estilo de vida
Quando perguntados sobre o que o sertanejo representa em suas vidas, tanto pessoalmente quanto profissionalmente, a resposta é enfática: “Nossa realidade!”. O sertanejo, para os artistas, vai muito além da música. “Acho que o sertanejo envolve muito sentimento e algo muito família”, explica Henrique.
Viver pelo sertanejo e pela música seria sinônimo de viver com o pé na estrada – a realidade típica de artistas sertanejos –, mas Henrique e Juliano prezam pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Desde que nossos filhos nasceram, não fazemos mais shows aos domingos, porque é o dia de todos sentarem à mesa e almoçarem juntos. Nossos filhos precisam e nós queremos que tenham essa rotina”, conta Juliano.
Vivendo uma fase mais tranquila, eles conseguem administrar a agenda de shows conforme desejam, prezando por uma rotina menos intensa, apresentações pontuais e mais importantes, sem abrir mão do tempo em casa. “Acho que esse é o caminho de qualquer artista, se estabelecer e equilibrar as rotinas, afinal, a família é nosso principal combustível para seguir em frente”, pondera Juliano.
Mas, se há algo que move os cantores além do convívio familiar, é o momento em que vêem os fãs cantando sua música. Para eles, essa é a parte mais gratificante de dedicar a vida ao sertanejo. A parte mais desafiadora, segundo eles, é “entender cada fase e ter sabedoria para seguir”.
“Queremos contar histórias que criam identificação com o público, sempre prestamos atenção na letra. Nosso processo de escolha de repertório fala muito sobre isso, é muito legal olhar e não só ver o público cantar, mas vivenciar a música”, diz Henrique.
Vida discreta e essência preservada
A decisão de manter uma vida mais reservada é defendida por ambos com muita firmeza. Henrique e Juliano, no palco, diferem de Ricelly e Edson Júnior, que gostam de andar de chinelo e jogar bilhar no boteco da estrada. Apesar da agenda agitada, a rotina familiar é surpreendentemente comum. Os irmãos se dedicam a buscar as crianças na escola, ajudar com as lições de casa e brincar juntos, priorizando a presença ativa em suas vidas. “Queremos estar presentes na vida dos nossos filhos o máximo que conseguirmos, passar de perto toda a nossa essência e crenças”, conta Henrique.
“Damos muito valor às coisas simples, para o que realmente importa, que é a nossa essência, nossa família. Somos muito reservados, não temos necessidade de nos expor. Não queremos que a vida do artista anule a nossa vida [pessoal], e quando você resolve expor demais está dando abertura para as pessoas entrarem na sua vida, algumas até sem ser convidadas”, diz Juliano.
No dia a dia, Henrique e seu “manim” – modo como se referiu ao Juliano durante a entrevista – consomem música o tempo todo, até mesmo no tempo livre. “A gente escuta tudo, quando não estamos ouvindo algo novo e conversando sobre. Mas também gostamos de viver a vida com a família e amigos. Cada um tem seu hobby, eu estou na fase do futevôlei, Juliano gosta de esportes radicais, também curto. Pode parecer mentira, mas até nisso combinamos”, conta Henrique.
Perguntados se a vida isolada na fazenda oferece uma perspectiva diferente sobre fama e sucesso, Henrique responde: “Acho que ajuda a preservar a nossa essência, entender o sentido de viver e do que realmente é importante na vida.”
Sucesso nas redes sociais
A popularidade da dupla transcende os palcos, atingindo as telas das redes sociais, onde momentos engraçados ou inesperados frequentemente ganham destaque. Um exemplo viral foi quando Henrique foi flagrado no trânsito, interagindo com fãs, ou brincando com o cachorro do cantor Nattan. “A gente acha engraçado demais, quem é próximo da gente sabe que somos inimigos do fim. Queremos todo mundo acordado e aproveitando a resenha com a gente até o final. Ninguém mandou Nattanzinho ir dormir”, brinca Henrique.
“Foi tudo uma brincadeira, mas hoje o ‘limite zero’, cachorrinho que o Nattan deu para o Miguel, é o xodó dele, acabou que todo mundo saiu ganhando. A única coisa que passa na nossa cabeça depois que vemos a repercussão é: ‘Que rolê foi esse?'”, fala.
A fama e a exposição, dentro dos limites, nunca foram um fardo para a dupla, que destaca o bom relacionamento com fãs e a imprensa. “Sempre tivemos uma relação de muito respeito e carinho com nossos fãs e imprensa, tivemos cuidado em não deixar que isso fosse um peso para nós, e acho que sermos mais reservados, gostar de viver na fazenda, contribuiu muito nisso tudo”, complementa Juliano.
Projetos atuais e futuros
Em agosto deste ano, a dupla sertaneja, ao lado de Jorge e Mateus, lançou Xonei, um feat muito aguardado pelo mercado musical. “Este foi o nosso primeiro encontro musical, a faixa foi escolhida por Jorge & Mateus e topamos na hora. É algo que os fãs e até o mercado esperava e nós quatro também. E pelo que temos visto nos shows a galera realmente abraçou!”, conta Henrique, com entusiasmo.
Agora, a dupla lança Manifesto Musical II, com 28 canções inéditas escolhidas a dedo ao longo de dois anos. O primeiro Manifesto Musical bateu o recorde como álbum que perdurou por mais tempo como o mais ouvido do país no Spotify – 29 semanas consecutivas – e finalizou 2022 como o mais ouvido de todas as plataformas e rádios.
“O primeiro Manifesto foi um trabalho que acreditamos, mas surpreendeu a todos nós. Levamos todo mundo para Palmas, transformamos nosso quintal de casa para gravar o Manifesto Musical II, do nosso jeito, com nossos fãs, familiares e amigos. Temos orgulho de mais um trabalho”, diz Henrique.
Quanto ao futuro, a maior aspiração da dupla é simples, mas profunda: “Ver os nossos filhos crescerem como pessoas de bem.” Em relação à carreira, eles imaginam que, em 10 ou 20 anos, estarão mais tranquilos, com “muito mais tempo em casa.”

