quarta-feira, fevereiro 18, 2026
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Geração Z e o sistema de avaliação: quando a métrica deixa de medir o essencial

Debate sobre geração Z, saúde mental, inteligência e modelo educacional reacende discussão sobre limites das provas padronizadas como instrumento de avaliação de desempenho e capacidade. Em meio a indicadores que apontam queda de desempenho acadêmico, especialistas questionam se o problema está na capacidade da nova geração ou na lógica de um sistema que privilegia performance em ambientes artificiais e ignora variáveis emocionais.

Educação e saúde mental: a percepção de queda de desempenho da geração Z expõe limitações históricas do modelo de avaliação acadêmica tradicional.

Nos últimos anos, relatórios educacionais e análises de desempenho acadêmico têm alimentado um discurso recorrente: o de que a geração Z estaria apresentando queda nos índices de aprendizagem e concentração. A narrativa ganhou força em diferentes países, especialmente após os impactos da pandemia, e passou a ser frequentemente associada à ideia de declínio intelectual.

Mas parte dos profissionais da área de saúde mental e educação propõe uma leitura alternativa. Em vez de enxergar a geração como menos capaz, sugerem que o debate revela fragilidades estruturais no modelo de avaliação que há décadas sustenta o sistema educacional.

O modelo da performance padronizada

Provas objetivas sempre ocuparam papel central na lógica escolar. Elas oferecem padronização, comparabilidade e eficiência estatística. No entanto, sua premissa é simples: medir desempenho em um ambiente controlado, em tempo delimitado, com respostas previamente definidas. Esse formato privilegia o que pode ser quantificado. Ele mede acertos. Mede rapidez. Mede aderência ao gabarito. O que ele não mede, com a mesma precisão, são variáveis humanas inevitáveis: estado emocional, qualidade do sono, ansiedade, luto, contexto familiar, insegurança financeira ou saúde física no dia da prova.

Ao tratar o cérebro como uma engrenagem previsível, o sistema tende a desconsiderar que cognição e emoção são indissociáveis. A neurociência contemporânea já demonstrou que fatores emocionais impactam diretamente memória, atenção e tomada de decisão, justamente as habilidades exigidas em avaliações padronizadas.

O ponto de tensão: queda de desempenho ou crise de encaixe?

A geração Z cresceu em um ambiente radicalmente diferente das anteriores. Digitalização acelerada, exposição constante a informação, instabilidade econômica, crises sanitárias e transformações no mercado de trabalho moldaram um perfil mais sensível a temas como propósito, saúde mental e qualidade de vida. Nesse contexto, a ideia de que um único número possa definir competência encontra resistência crescente. Para alguns especialistas, o que está sendo interpretado como “queda de inteligência” pode ser, na prática, um desencaixe entre uma geração que questiona estruturas e um sistema que ainda opera sob parâmetros industriais de avaliação.

Historicamente, modelos educacionais foram desenhados para formar profissionais em larga escala, dentro de padrões relativamente homogêneos. A geração Z, por outro lado, tende a valorizar autonomia, diversidade de trajetórias e múltiplas formas de aprendizagem. A tensão surge quando a métrica permanece a mesma, mas o perfil do avaliado muda.

Saúde mental como variável estrutural

Dados globais indicam aumento significativo de ansiedade e depressão entre jovens. Organismos internacionais vêm apontando que a saúde mental se tornou um dos principais desafios da década. A questão central é que desempenho acadêmico e saúde emocional não são variáveis independentes. Quando o debate público reduz resultados a uma suposta inferioridade intelectual, ignora-se que o ambiente contemporâneo impõe níveis de pressão inéditos.

Há ainda uma contradição recorrente: sistemas que exaltam excelência acadêmica frequentemente produzem profissionais altamente qualificados tecnicamente, mas com baixa tolerância à frustração e dificuldades de regulação emocional. Isso levanta uma pergunta relevante para o mundo corporativo: a métrica atual está avaliando as competências que realmente sustentam desempenho no longo prazo?

O impacto no mercado e nas organizações

Empresas já começam a rever critérios de recrutamento. Processos seletivos que antes se apoiavam quase exclusivamente em histórico acadêmico passaram a incorporar avaliações comportamentais, testes situacionais e análise de soft skills. Características como adaptabilidade, inteligência emocional, pensamento crítico e resiliência ganham espaço, justamente atributos pouco mensuráveis em provas tradicionais.

Essa mudança indica que o debate não é apenas educacional, mas econômico. Se o mercado demanda competências mais complexas do que acertos objetivos, o sistema de avaliação precisa evoluir para refletir essa realidade.

Uma transição inevitável

Ao longo da história, sistemas são pressionados a se adaptar quando deixam de refletir a complexidade do contexto em que operam. A discussão em torno da geração Z pode representar menos um diagnóstico de incapacidade e mais um sintoma de transição estrutural. Provas continuam sendo instrumentos relevantes. O conhecimento técnico permanece indispensável. O que está em debate não é a importância do estudo, mas a crença de que performance pontual resume potencial humano.

Se uma questão correta demonstra aderência a um gabarito, ela não necessariamente revela criatividade, ética, coragem, constância ou capacidade de enfrentar adversidades, competências cada vez mais determinantes no ambiente profissional e social. Talvez o verdadeiro desafio não seja medir melhor uma geração, mas atualizar as ferramentas de medição para um mundo que já mudou.

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Léo Martins é estudante formando de medicina com atuação voltada à saúde mental e comunicação científica. Produz conteúdo sobre comportamento, inteligência emocional e os impactos psicológicos das transformações sociais contemporâneas.

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