sábado, março 7, 2026
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Angelica Benassi: a professora que transformou a curiosidade por músicas em uma missão de ensinar

A menina que um dia tentou entender letras de músicas em uma lan house se tornou uma professora comprometida em ajudar outros jovens a descobrir o poder da linguagem, da educação e do conhecimento.

A curiosidade de uma adolescente diante das letras de músicas internacionais pode parecer algo comum, mas para Angelica Benassi esse pequeno impulso se transformaria em uma jornada que mudaria completamente o rumo da sua vida. Professora de Língua Portuguesa e Língua Inglesa, Angelica construiu uma trajetória marcada por persistência, curiosidade intelectual e um profundo compromisso com a educação, atuando hoje da Educação Infantil ao Ensino Médio e acumulando experiências que atravessam diferentes realidades sociais e culturais.

O interesse por idiomas começou cedo, quando ela tinha apenas 14 anos. Na época, o acesso à internet ainda era limitado e não fazia parte da rotina de muitas famílias brasileiras. Em sua casa não havia computador, e aprender inglês parecia algo distante da sua realidade. Mesmo assim, a curiosidade foi mais forte. O desejo de entender as letras das músicas que ouvia no rádio, especialmente da cantora Mariah Carey, despertou uma inquietação que viria a se transformar em um caminho profissional.

Sem recursos tecnológicos em casa, Angelica encontrou uma forma criativa de aprender. Com pequenas moedas que guardava, visitava lan houses para acessar a internet. Ali começava um processo de aprendizado que misturava curiosidade, dedicação e disciplina. Ela buscava as letras das músicas no Google, utilizava ferramentas de tradução e copiava tudo cuidadosamente em um caderno. Depois repetia o processo várias vezes até conseguir compreender e cantar trechos das canções.

Esse hábito aparentemente simples despertou algo mais profundo. Ao comparar as estruturas das frases em inglês com aquelas da língua portuguesa, começou a se perguntar por que as duas línguas funcionavam de maneiras diferentes. As perguntas sobre gramática, estrutura e construção de frases abriram caminho para um interesse maior pela linguística e pelos processos de aprendizagem.

Ainda na adolescência, o fascínio pelos idiomas já vinha acompanhado de outro desejo: ensinar.

Durante o ensino médio, por volta dos 17 anos, Angelica passou a buscar oportunidades para estudar inglês formalmente. Como sua família não tinha condições de custear cursos contínuos, ela aproveitava períodos gratuitos oferecidos por escolas de idiomas. Frequentava um mês de aula em uma instituição e, quando o período gratuito terminava, buscava outra oportunidade semelhante em outra escola.

A persistência continuou na fase universitária. Após concluir o ensino médio e já trabalhando, conseguiu uma bolsa de estudos pelo Programa Universidade para Todos, o ProUni, que cobria 70 por cento do valor da mensalidade. Foi assim que iniciou sua formação em Licenciatura em Língua Portuguesa, dando o primeiro passo oficial na carreira docente. Mais tarde, também se formaria em Língua Inglesa, ampliando sua atuação profissional e consolidando a escolha pela educação.

Com o avanço da carreira, surgiram novas oportunidades de crescimento. Um dos momentos marcantes de sua trajetória foi a experiência internacional em Malta, na Europa. Durante dois meses, Angelica viveu uma imersão completa no idioma inglês. O intercâmbio não apenas fortaleceu sua fluência, mas também ampliou sua visão sobre educação, cultura e comunicação global.

De volta ao Brasil, passou a atuar em diferentes contextos educacionais, incluindo escolas bilíngues reconhecidas internacionalmente. A experiência em ambientes variados reforçou uma percepção que se tornaria central em sua prática pedagógica: cada aluno aprende de uma maneira diferente e cada faixa etária apresenta desafios específicos no processo de aprendizagem.

Entre as diversas experiências acumuladas ao longo da carreira, uma delas ocupa um lugar especial em sua memória. Angelica acompanhou o processo de alfabetização de um estudante do nono ano do ensino fundamental que apresentava grande defasagem em leitura e escrita. O desafio exigiu dedicação, paciência e estratégias pedagógicas cuidadosas para reconstruir um processo de aprendizagem que havia sido interrompido ao longo da trajetória escolar do aluno.

Meses depois, o momento que simbolizou a transformação daquele trabalho veio de forma inesperada. O estudante entregou à professora uma carta escrita por ele mesmo, agradecendo pelo apoio e pelo caminho de aprendizado que havia sido reconstruído. Para Angelica, aquele gesto representava muito mais do que um simples agradecimento. Era a confirmação de que a educação tem o poder de devolver confiança, autonomia e novas possibilidades de futuro.

Outro capítulo singular de sua carreira aconteceu na Terra Indígena Jaraguá, localizada no Pico do Jaraguá, em São Paulo. Na Escola Estadual Indígena Djekupe Amba Arandy, Angelica atuou ensinando Língua Portuguesa como segunda língua e Língua Inglesa como terceira língua para estudantes da etnia Guarani Mbya. Em um ambiente onde a língua materna e a cultura indígena são centrais para a identidade da comunidade, o trabalho exigia sensibilidade cultural e adaptação metodológica constante.

A experiência ampliou sua compreensão sobre o papel da educação em contextos culturais diversos. Mais do que ensinar idiomas, o objetivo era construir pontes entre diferentes mundos linguísticos e sociais, permitindo que os estudantes ampliassem suas possibilidades de comunicação sem perder a conexão com sua própria identidade cultural.

Hoje, com cinco anos de carreira na educação, Angelica segue dedicada ao ensino e ao desenvolvimento linguístico de seus alunos. Sua trajetória mostra como a curiosidade, quando alimentada pela persistência e pelo desejo de aprender, pode se transformar em propósito profissional.

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